Gestão territorial para a sustentabilidade da nossa agricultura

Com frequência sou indagado sobre gestão territorial, qual sua aplicação e sua relação com sustentabilidade da agricultura. Começando pelas possíveis aplicações, posso citar alguns exemplos.

A Embrapa vem trabalhando no mapeamento da vulnerabilidade das águas subterrâneas, no planejamento da vigilância e do controle territorial de ameaças fitossanitárias, e ainda na definição de estratégias para aumento da produção de trigo e de leite nas diferentes regiões brasileiras.

Utilizando um sistema de informação geográfica, a Embrapa Gestão Territorial realizou o mapeamento das áreas onde as águas subterrâneas estão vulneráveis à contaminação no Cerrado brasileiro. Foram identificadas áreas com maior vulnerabilidade na região sudeste e centro-leste do Mato Grosso, oeste da Bahia, sudoeste de Goiás, norte de Mato Grosso do Sul. O trabalho será detalhado e expandido para outras regiões agrícolas do País, dada a importância estratégica desse recurso natural. Água é essencial para a manutenção de todas as formas de vida sobre a Terra e para o funcionamento dos ecossistemas. Os recursos hídricos são fundamentais para várias atividades humanas e a presença ou ausência de água de qualidade determina a ocupação de territórios e o futuro de gerações.

A Embrapa conta com bases de dados geograficamente referenciados e, em cooperação com outras instituições, tem capacidade técnica para identificar as prováveis vias de ingresso de pragas agrícolas no País e as possíveis rotas de disseminação, bem como a localização das lavouras ameaçadas. Dessa forma, os postos de vigilância fitossanitária podem atuar de forma conjunta e coordenada na prevenção da entrada e no combate ao estabelecimento de pragas agrícolas no território brasileiro. Sabemos que, se a entrada da praga Helicoverpa armigera fosse evitada, não ocorreriam prejuízos estimados em mais de 10 bilhões de reais.

Outro trabalho demonstra o grande potencial do Brasil como produtor de trigo, atendendo o consumo interno e até permitindo a exportação. Os resultados fornecem indicativos de que as políticas públicas podem ser direcionadas às regiões tradicionais de produção, na busca pela minimização das variações na quantidade produzida ao longo do tempo e visando à melhor qualidade do trigo. Assim como, podem levar à retomada de áreas de produção de trigo hoje em declínio ou estagnação. Se a autossuficiência na produção de trigo for obtida, teremos um impacto positivo estimado em torno de 4 bilhões de reais por ano e uma grande contribuição para a segurança alimentar da população brasileira.

A produtividade média nacional de leite no Brasil é baixa quando comparada a de outros países. A adoção de tecnologias proporcionará o aumento da produção, além da melhoria na qualidade do leite. A análise realizada pela Embrapa comparou duas estratégias de identificação de municípios prioritários para ações de transferência tecnológica em regiões atualmente com alta ou baixa produtividade do rebanho leiteiro. Com ambas as estratégias pode-se obter o aumento de 40% na produção de leite no país, o que representaria um incremento estimado em cerca de 13 bilhões de reais por ano, além de uma enorme contribuição para a segurança na oferta de alimentos – leite e seus derivados.

Esses são exemplos de aplicações da gestão territorial em temas estratégicos. Outros exemplos que podem ser citados vêm da análise da dinâmica da agropecuária brasileira, como no caso da cultura de soja e dos rebanhos bovinos, da adequação entre rebanho bovino de corte e alcance geográfico de frigoríficos e da caracterização das áreas de produção agrícola e da infraestrutura e logística da região do MATOPIBA.

O território, além do meio físico e dos recursos naturais, inclui os aspectos sociais, econômicos e políticos. Assim, para a efetiva gestão territorial, busca-se tornar o conhecimento do território mais acessível aos gestores para possibilitar-lhes visões e decisões estratégicas. A gestão territorial surge do reconhecimento da importância das políticas e dos instrumentos de ordenamento do território. O espaço geográfico passa a ser a unidade integradora e o uso de geotecnologias, como ferramentas de sistematização de informações e conhecimento, suporta a gestão territorial e aumenta sua eficiência.

Vintes anos atrás o desafio era incorporar o conceito de sustentabilidade na agricultura, considerando os aspectos econômicos, sociais e ecológicos. Hoje o conceito de sustentabilidade é amplamente aceito e deixar de considerar a distribuição e a movimentação das atividades agrícolas, pecuárias, florestais e agroindustriais pode comprometer a sustentabilidade da agricultura. A agricultura é difusa e sua dinâmica no espaço geográfico e ao longo do tempo requer base territorial na formulação, implantação e o acompanhamento das políticas públicas e de setores privados de interesse nacional.

A Embrapa Gestão Territorial, que está completando cinco anos de atividades, contribui para consolidar a atuação da Embrapa nessa área do conhecimento e vem trabalhando em redes de cooperação com demais unidades da Embrapa e com outras instituições, buscando sempre gerar resultados diretamente aplicáveis e relevantes.

Claudio Spadotto é membro do Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CCAS) e gerente geral da Embrapa Gestão Territorial

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