Leguminosas na alimentação de bovinos: prós e contras

Não raro ouve-se falar dos benefícios das leguminosas para o meio ambiente, o solo, a nutrição animal, mas você conhece os prejuízos que um manejo inadequado pode trazer? Ou como tirar melhor proveito delas?

O pesquisador Celso Dornelas, da Embrapa Gado de Corte, fala sobre características de efeito anti-qualidade em cultivos solteiros e estratégias de manejo em bancos de proteína e consórcio com gramíneas.

Cultivo solteiro – Preocupante para a alimentação dos bovinos e ainda mais para a dos cavalos – animais monogástricos –, o plantio de leguminosas solteiras para alimentação animal é uma prática não recomendada.

De acordo com o pesquisador, além dos riscos de intoxicação por substâncias nocivas e de empanzinamento, existem outras questões envolvidas. É o caso do efeito anti-qualidade do Estilosanthes Campo Grande, variedade adaptada a solos arenosos (com menos de 30% de argila).

Leguminosas na alimentação de bovinos: prós e contras
Pasto consorciado de capim-massai e Estilosanthes Campo Grande

“Largamente usado no mercado, ele não traz riscos associados a substâncias tóxicas, mas a um processo que acontece durante a ruminação: a formação de fitobezoares”. Os fitobezoares consistem em aglomerações principalmente de fibra das folhas da leguminosa em torno de partículas minerais. Tendo formato de bola, esse material pode se movimentar e ir parar no intestino dos animais, causando ferimentos e uma infecção conhecida como septicemia. Segundo Dornelas, fitobezoares maiores podem pesar de 2 a 3 kg e, geralmente, não preocupam porque ficam instalados no rúmen, sendo encontrados, inclusive, após o abate. “O problema são os pequenos, de 50 a 100 gramas”, afirma o pesquisador – “já que são eles os que avançam pelo trato digestivo”. Acometidos pela septicemia, a maioria dos animais morre.

Hoje, pesquisadores trabalham para provar a existência de um agravante na ocorrência desse processo. “Isso ainda não é resultado de pesquisa, mas temos indícios de que a associação de sal proteinado ou ureia à dieta com Estilosanthes potencializa o risco de o animal ter septicemia”, diz Dornelas. Resultados objetivos podem contribuir, no futuro, para melhor manejo da leguminosa.

Bancos de proteína – Conhecido também como modelo ‘put and take’, o banco de proteína pode ser usado em sistemas intensivos com possibilidade de movimentar o rebanho entre pastos de leguminosas e de gramíneas. Diferente de um consórcio tradicional, ele depende do mix de ingredientes que é feito no trato digestivo dos animais. “É como se a gente fosse almoçar e comesse só a carne e depois só o arroz”, exemplifica Dornelas. Na prática, o boi é solto por cerca de três horas no pasto de leguminosas e, depois, manejado para a pastagem de capim – onde permanece o restante do dia.

“Oferecendo proteína no pasto, o produtor abre, inclusive, uma alternativa à suplementação, e consegue maior equilíbrio, da dieta do bezerro desmamado à do animal que está sendo preparado para abate”, afirma o pesquisador. Segundo ele, por conta do manejo, o sistema é mais comum em propriedades de gado de leite, sendo plantadas leguminosas como leucena, alfafa, estilosanthes, calopogônio e centrosema. (A seguir, damos maiores detalhes sobre o Estilosanthes Campo Grande).

O banco de proteínas traz benefícios tanto para o animal como para o solo e o meio ambiente. “Em um estande puro, só de Estilosanthes, a fixação de nitrogênio chega a 179 kg/ha/ano, correspondendo a uma aplicação de aproximadamente 450 kg de ureia/ha”, diz Dornelas. Favorável à formação de micorrizas (associação entre raízes da planta e fungos do solo), essa leguminosa também tem papel importante na absorção e ciclagem de nutrientes.

“Outra característica importante é a proteção que faz do solo e seu potencial como matéria orgânica. Quando a planta mãe morre, as raízes apodrecem e os orifícios antes ocupados por elas ficam abertos para infiltração de água”. Com isso, grande parte da água que escorreria superficialmente ganha outro destino, o que evita a erosão. Ao terminar seu ciclo, a planta deixa ainda matéria orgânica de qualidade no solo; matéria orgânica essa que apresenta velocidade de decomposição maior do que a de qualquer gramínea.

Consórcios gramínea-leguminosa – Com reconhecidos méritos – como o incremento de 20% a 30% na produção de carne e leite comparativamente a pastagens convencionais –, o consórcio com Estilosanthes também tem suas vantagens. Guardadas as proporções de uma área só de leguminosas, reflete os benefícios listados acima e outros mais.

“Um ponto que podemos destacar é a dieta equilibrada com manejo facilitado para gado de corte, que promove uma ruminação mais rápida e, consequentemente, menor emissão de metano e diminuição do tempo de terminação”, afirma o pesquisador. Em áreas de braquiária brizantha consorciada com o Campo Grande também foi observado incremento de 20% a 30% no teor de proteína das folhas desse capim.



Em geral, a proporção indicada para consórcio é de 30% leguminosas e 70% gramíneas. Falando do Estilosanthes Campo Grande, uma medida importante é o manejo após a semeadura do pasto. “Essa é uma planta com desenvolvimento inicial lento, então, um risco que se tem, em caso de consorciação, é o de a braquiária vir a se sobrepor ao Estilosanthes”. Para evitar essa situação, o pesquisador recomenda que o pecuarista solte uma boiada leve sobre a pastagem 60 dias depois do plantio. “É melhor o gado pisotear a área do que não pisotear, porque o Estilosanthes é uma planta que gosta de luz e se a braquiária cresce demais ele acaba morrendo”.

Tampouco é indicado o superpastejo. “Em áreas de solos arenosos o resultado disso é que a braquiária desaparece e fica só o Estilosanthes”. Caracterizada por ter um ciclo de vida curto, a leguminosa nasce, cresce e morre em dois anos. “Isso não significa que seu pasto vai durar só esse período, afinal, ela produz um bom banco de sementes”.

Para formar um pasto de 1 hectare de Estilosanthes Campo Grande o produtor precisa de 3 kg de sementes. Em contrapartida, todo ano, em sistemas consorciados, as plantas contribuem com 150 kg. Com manejo adequado, a proporção gramíneas-leguminosas se mantém. “Você tem que pensar que nem todas essas sementes germinam, mas o banco está ali, o que torna possível que o pasto dure muito mais. Eu mesmo já vi consórcios de Estilosanthes com braquiária brizantha que têm 15 anos”.

O Estilosanthes contribui ainda para cobrir espaços vazios deixados pela braquiária e, por todas as suas características, evitar a degradação das pastagens.

Novidade à vista

No ano que vem, está previsto o lançamento pela Embrapa do Estilosanthes guianenses, chamado também Estilosanthes Bela. De acordo com Dornelas, o produtor pode esperar uma variedade melhor adaptada a solos argilosos, com desenvolvimento inicial mais rápido que o Campo Grande e boa produção de massa. “Características que foram pensadas também para uso em sistemas de integração lavoura-pecuária”, dis Dornelas.

Fonte: Portal DBO

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